Captulo 1

Exame do Behaviorismo

Parece haver, para a Psicologia, exatamente como para tdas as de mai cincias, um nico ponto de partida: o
mundo tal como o descobri mos de maneira simples e desprovida de crtica. A simplicidade tende a
 desaparecer  medida que avanamos. Surgem problemas a princpio
completamente ocultos a nossos olhos, para cuja soluo pode tornar-se 
necessrio aventar idias que pouca relao paream apresentar com a 
experincia primria e direta. De qualquer maneira, porm, tudo tem 
que comear com uma simples e candida imagem do mundo. Essa 
origem  necessria, j que no existe outro alicerce em que a cincia 
possa firmar-se. Em meu prprio caso, que pode ser considerado como 
um exemplo de muitos outros, aquela imagem simples consiste, neste 
momento, em um lago azul rodeado por florestas escuras; um grande 
rochedo cinzento, duro e frio, onde resolvi sentar-me; um papel no 
qual escrevo; o leve rudo da brisa, que mal agita as rvores, e um 
cheiro forte e caracterstico de barcos e de peixe. H, porm, mais 
alguma coisa neste mundo: algo que contemplo, embora sem que se 
confunda com o lago azul do presente, outro lago de um azul mais 
apagado, que contemplei alguns anos antes, de sua margem, no Illinois. 
Estou perfeitamente acostumado a contemplar milhares de imagens 
desta espcie, que surgem quando me encontro szinho. E ainda existem 
outras coisas neste mundo: por exemplo, minha mo e meus dedos, 
que se movem de leve sbre o papel. Alm disso, quando paro de 
escrever e olho em trno, h, tambm, a sensao de sade e vigor. 
Logo em seguida, porm, sinto, no ntimo, algo como uma presso 
sombria que tende a transformar-se na impresso de que estou sendo 
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perseguido: prometi entregar stes originais prontos dentro de poucos meses. 
A maior parte das pessoas vive, constantemente, em um mundo igual a sse, que , para elas, o mundo, e 
dificilmente encontram problemas srios em suas propriedades fundamentais. Ruas apinhadas de gente podem 
substituir o lago, o encsto de um carro substituir meu rochedo, podem ser relembradas em vez do Lago 
Michigan certos aspectos srios de algum negcio comercial, e a impresso desagradvel pode provir no da 
necessidade de escrever um livro, e sim de ter que pagar impostos. Tudo isso constitui diferenas de 
importncia secundria, enquanto encaramos o mundo por seu aspecto aparente, que  o que todos ns 
fazemos, exceto nas horas em que a cincia perturba nossa atitude natural.  claro que h problemas, mesmo 
para os cidados menos dotados de esprito crtico dste mundo no usado. Em sua maior parte, porm, tais 
problemas no se referem  natureza do mundo como tal; tm, antes, aspecto prtico e emocional, e significam 
apenas que, admitindo-se como certo ste mundo, no sabemos como comportar-nos na parte do mundo que 
enfrentamos como nossa situao presente. 
1-l sculos, vrias cincias, em particular a Fsica e a Biologia, comearam a solapar a confiana singela dos 
sres humanos no sentido de considerar ste mundo como a realidade. Embora centenas de milhes de 
pessoas continuem despreocupadas a sse respeito, o cientista agora verifica encontrar-se tal mundo repleto 
das mais contraditrias propriedades. Felizmente, conseguiu descobrir, por trs dle, outro mundo, cujas 
propriedades, bem diversas das do mundo das pessoas simples, no parecem, de modo algum, contraditrias. 
No  de admirar, portanto, que agora, quando a Psicologia comea a transformar-se em cincia, alguns dos 
seus mais decididos cultores queiram faz-la seguir, sem demora, o caminho das cincias naturais. De fato, se 
os cientistas verificaram ser o mundo simples impermevel ao seu mtodo, que melhor esperana de xito 
podemos acalentar, como psiclogos? E, uma vez que j foi executada pelos fsicos a extraordinria faanha de 
passar do mundo da experincia direta, mas confusa, para um mundo de clara e rude realidade, pareceria 
aconselhvel para o psiclogo tirar partido dsse grande acontecimento na histria da cincia e tratar de 
estudar a Psicologia, partindo da mesma base mais slida. 
Algumas palavras acrca da histria da crtica cientfica nos ajudar a definir melhor o material que a Psicologia 
ter de deixar de lado e indicar como dever ser feita a escolha de objetos mais adequados. Nossa experincia 
simples consiste, antes de tudo, de objetos, suas propriedades e transformaes, que parecem existir e 
acontecer de maneira de todo independente de ns. No que lhes diz respeito, nao parece ter importncia o fato 
de ns os vermos, apalp-los e ouvi-los, ou no. Quando no estamos presentes ou nos encontramos 
ocupados com outros objetos, les, aparentemente, continuam tais como eram, 
quando lhes dvamos plena ateno. Em tais circunstncias, constituiu grande progresso o fato de o homem 
comear a fazer indagaes sbre a natureza da vista, do tato e da audio. E ocorreu uma verdadeira 
revoluo quando descobrimos que as cres, os rudos, os cheiros, etc. no passavam de produtos de 
influncias exercidas pelo ambiente sbre o homem. Ainda assim, sse ambiente parecia subsistir com suas 
caractersticas primrias, continuando a ser o mundo real. Subtradas aquelas qualidades secundrias, 
como ingredientes puramente subjetivos, permaneciam as qualidades primrias, aparentemente tomadas como 
caractersticas diretas da realidade. Finalmente, porm, as qualidades primrias da rea1idade singela 
mostraram-se to subjetivas quanto as secundrias: a forma, o pso e o movimento das coisas tiveram de ser 
interpretados da mesma maneira que as cres e os sons; tambm les dependiam do organismo que os 
experimentava e eram meros resultados finais de complicados processos no seu mago. 
Que restou? A resposta foi que, da para diante, nenhum aspecto da experincia imediata poderia ser 
considerado como parte do mundo real. Se, assim, tanto as caractersticas primrias quanto as secundrias do 
mundo conhecido pela experincia derivavam de influncias que o ambiente exercia sbre o organismo, ste 
ambiente j no poderia ser identificado como o meio experimentado pelo homem, O meio experimentado pelo 
homem constitui o efeito de tais influncias, e no pode, pois, ao mesmo tempo, ser considerado como as 
causas originadoras de tais influncias. Assim sendo, a cincia teve de construir um mundo objetivo e 
independente, de coisas fsicas, espao fsico, tempo fsico e movimento fsico, e de afirmar que tal mundo no 
aparece, de modo algum, na experincia direta. 
Devemos observar, aqui, que o mesmo raciocnio se aplica ao organismo. Por um lado, nosso corpo se 
apresenta a ns como uma coisa particular na experincia sensorial. Por outro lado, essa experincia sensorial 
particular  causada por acontecimentos fsicos ocorridos no objeto fsico que chamamos de nossop 
organismo. Smente o corpo como parte da experincia sensorial nos  diretamente accessvel. S temos 
conhecimento do organismo, como de tdas as outras coisas fsicas, atravs de um processo de inferncia ou 
construo. Meu organismo reage ante a influncia de outros objetos fsicos, mediante processos que mantm 
o mundo sensorial em trno de mim. Outros processos no organismo fazem surgir a coisa sensorial que chamo 
de meu corpo. Tambm aqui, outros so responsveis pelo aspecto interior de minha experincia, por 
sensaes como as de fome e fadiga, por emoes como as de mdo e esperana, etc. 
No precisamos considerar como o mundo da cincia, que no aparece na experincia direta, pode, no 
obstante, ser investigado pelos fsicos. No pode haver dvida quanto ao notvel xito do processo. Ao 
passo que o mundo do homem simples  algo de confuso e revela seu carter subjetivo em qualquer exame 
crtico de suas propriedades, no mundo 
o 
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dos fsicos no so toleradas quaisquer confuses ou contradies. Embora possam surpreender-nos as 
rpidas transformaes que as teorias fsicas sofrem em nossos dias, o fato  que, em sua maior parte, tais 
transformaes se fazem para melhor. Segundo tudo indica,  de se deduzir que todos os fatos importantes do 
mundo fsico acabaro sendo includos em um sistema de conhecimento claro e unitrio. 
Voltemos agora  Psicologia. Durante algum tempo, concebeu-se essa disciplina como a cincia da experincia 
direta, de seus aspectos externos e internos, em contraste com os objetos e ocorrncias fsicas. Pela descrio 
da experincia direta, o psiclogo esperava chegar no smente a um levantamento metdico de tdas as suas 
variedades, como tambm a boa dose de informaes acrca das relaes funcionais entre tais fatos. Visava, 
mesmo, a formular as leis que regem o curso da experincia. 
Esta concepo de Psicologia tem sido severamente criticada pela escola psicolgica do behaviorismo, que 
condena tanto o objeto quanto o objeto da Psicologia no velho sentido. De acrdo com o behaviorismo, no  
possvel chegar-se a um levantamento convincente da experincia direta, nem se chega a coisa alguma com a 
tentativa de descrever as relaes entre suas variedades, ou de formular as leis da chamada vida mental. 
Evidentemente, sustenta o behaviorismo, no existe uma cincia de experincia direta, dispondo de mtodos 
claros e resultados dignos de confiana. Discusses infindveis a respeito de questes de pequena 
importnca, e, com menos freqncia, a respeito de questes de maior importncia, no podem ser aceitas 
como sucedneo, particularmente tendo-se em conta que os fatos da experincia, que deveriam ser os mesmos 
para todos, so descritos de maneira de todo diferente pelos diferentes autores. Vejamos o exemplo das 
imagens. Um psiclogo afirma t-las em grande nmero, muitas delas quase to vivas e concretas como 
percepts. Outros nos dizem que, em sua experincia direta, no ocorre tal coisa e que aqule primeiro psiclogo 
deve ter-se deixado enganar pelas palavras ou outros fenmenos motores, relacionados com objetos no 
realmente presentes na experincia. Se em um simples caso como ste, a introspeco no pode dar melhor 
resultado, que devemos esperar em questes de maior importncia, mas onde tambm se apresenta maior 
dificuldade intrnseca? Na realidade, os prprios partidrios da introspeco no parecem confiar em seu 
processo. Aparentemente, mostram-se inclinados a enfrentar os problemas importantes com a maior raridade 
possvel e a se ocuparem principalmente, no campo da sensao, com pormenores que no interessam a 
ningum, a no ser a les prprios. Se o prprio objetivo anunciado  o de nos apresentar uma cincia de 
experincia direta, naturalmente seria de esperar que tal concepo fsse aplicada, de pronto, na abordagem 
direta dos aspectos centrais do objeto do estudo. No entanto, apenas sua periferia  timidamente aflorada. 
Tambm nos pases europeus, de h muito passou a ser motivo de galhofa a preocupao dos psiclogos em 
discutir futilidades. E engraado ver como, no caso, por 
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exemplo, de uma simples comparao como acontecimento psicolgico, centenas de pginas foram gastas na 
descrio de experincias diminutas, ao passo que jamais se dava uma explicao sbre a ocorrncia e a 
exatido da prpria comparao. Mesmo em estado de perplexidade, uma cincia pode ser altamente 
interessante. Essa verso da Psicologia, porm, no se mostrou apenas inteiramente falha, como se tornou 
maante para todos aqules que no fizeram dela sua profisso. 
Os behavioristas costumam acrescentar que a insistncia na introspeco est estreitamente relacionada com 
uma preveno filosfica. Estejamos ou no conscientes do fato, em seu afastamento do mundo da fsica o 
conceito da experincia direta est claramente relacionado com noes tais como mente e alma. Sub-
repticiamente, a expresso refere-se s atividades de uma substncia mental a que no se aplicam as leis da 
Fsica e da Biologia. Em conseqncia, muitas e muitas supersties de origem religiosa ou metafsica tiveram 
facilidade de se esconder dentro da significao do conceito. Quando criana, o psiclogo ouviu falar muito a 
respeito da alma e de seus milagrosos podres, e tudo isso ainda sobrevive em suas afirmaes, acrca da 
experincia direta, fazendo de sua introspeco uma simples defesa do obscurantismo medieval. 
Se fsse ste o nico argumento contra a introspeco, os psiclogos filiados a tal escola poderiam retrucar 
que a crtica no se aplica s caractersticas da experincia direta em si mesma, mas apenas a certo perigo, do 
qual nem todos os psiclogos partidrios da introspeco podem estar suficientemente cientes, O remdio, em 
tal caso, seria maior autocrtica, acompanhada da cuidadosa eliminao das influncas religiosas ou filosficas 
que se fazem sentir sbre os estudiosos de psicologia. Tais providncias representariam, ao mesmo tempo, 
gestos apaziguadores para com o behaviorismo rigorista. 
Os adeptos desta escola, contudo, tm outros motivos para no aceitar a experincia direta como campo de 
pesquisa cientfica. Em primeiro lugar, falta  introspeco, como processo, a principal virtude metodolgica do 
trabalho na fsica: achar-se o observador situado fora do sistema que observa. A introspeco e seus objetos 
so fatos que se situam dentro do mesmo sistema, sendo diminuta a possibilidade de que a primeira no afete 
os segundos. Pode servir de exemplo, a sse respeito, qualquer esfro para se estudar a dor ou a alegria por 
meio da introspeco. Se  feito o esfro adequado, tais experincias no permanecem as memas; ao 
contrrio, tendem a desaparecer, quando a prpria pessoa prsa da dor ou da alegria tenta assumir uma atitude 
de introspeco. 
Mesmo, porm, se tal dificuldade pudesse ser superada, de acrdo com os partidrios do behaviorismo, 
continuaramos a verificar a inutilidade do mtodo, em virtude de seu mesquinho e inevitvel subjetivismo. 
Qual a principal caracterstica de uma afirmao objetiva que formula o resultado de observaes cientficas? 
Quem quer que se 
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interesse pela afirmao, poder ser forado a aceit-la como tendo uma significao precisa. Para sse fim, 
apenas precisamos apresentar as definies exatas dos trmos que empregarmos. Assim, h definies exatas 
para o pso atmico e para o nmero atmico de um elemento, bem como para a analogia e a homologia das 
estruturas morfolgicas. No h fsico ou bilogo que no conhea a significao exata dessas palavras. 
Ouamos, porm, os psiclogos que falam, por exemplo, acrca da indistino caracterstica da viso perifrica. 
Que acepo exata pode ser atribuda a essa palavra, enquanto no fr ela exatamente definida? Tal def inio, 
no entanto, afigura-se impossvel, sempre que tenhamos de nos haver com os dados finais da experincia 
direta. Se pedirmos ao psiclogo uma definio de indistino, le procurar definir a expresso, 
negativamente, como falta de clareza. Isso, porm, de pouco nos vale, uma vez que temos de indagar ao 
psiclogo o que le entende por clareza. Talvez le nos responda que a clareza  uma propriedade normal da 
parte central de um campo visual adequado. Infelizmente, tal campo ter mais de uma propriedade normal e na 
pseudodefinio do psiclogo no  apresentada di/erentia specifica, e alm disso o vocbulo adequado 
exige uma definio, tanto como indistino e clareza. Seja como fr, o psiclogo lanou mo, em tal caso, do 
nico recurso cabvel quando, como se d no campo da experincia direta, no se pode chegar a uma definio 
de verdade: limitou-se a apontar para uma determinada direo. Quando no podemos definir um trmo, 
podemos dar uma indicao sbre as condies nas quais a coisa em questo pode ser experimentada. No 
caso de outros compreenderem as palavras, mediante as quais so descritas tais condies, stes outros 
podero ajustar o trmo indefinido ao aspecto de sua prpria experincia, ao qual o trmo em questo est 
realmente destinado a referir-se. Quanto , porm, grosseiro e vago tal processo, em comparao com a 
elegncia das definies da cincia exata! 
E ainda assim, temos de presumir que, dadas as mesmas condies, uma pessoa que no possa conhecer mais 
do que a sua prpria experincia, nela encontrar sempre as memas caractersticas, objetos e ocorrncias que 
outra pessoa encontra na sua. Dois fsicos diferentes podem fazer afirmaes a respeito do mesmo fato. 
Podem, por exemplo, proceder a leituras no mesmo aparelho ou escala. No caso da experincia direta, porm, 
duas pessoas tm sempre dois fatos em duas experincias distintas. Qual a prova de que dispomos para 
presumir que, em determinadas condies, os dados finais da experincia so os mesmos para diversas 
pessoas? Infelizmente, jamais poderemos saber se tal , realmente, o caso. De um lado, o daltonismo e outros 
fenmenos semelhantes mostram, conclusivamente, que tal concordncia no  a regra geral. Por outro lado, 
no temos prova da concordncia, mesmo no caso em que tdas as experincias imaginveis apresentam 
resultados idnticos, tais como relatrios verbais exatamente iguais. Uma pessoa pode informar sempre que se 
trata de vermelho, onde 
outra pessoa tambm afirma tratar-se de vermelho, mas, ainda assim, s sabemos que a primeira pessoa se 
refere a uma qualidade constante onde a segunda pessoa se refere sempre ao vermelho. No podemos saber se 
a primeira pessoa distingue a mesma qualidade que  chamada de vermelho pela segunda pessoa. E nem nos 
vale o fato de aquilo que uma pessoa chama de vermelho apresentar o mesmo carter excitante encontrado por 
outra pessoa naquilo que chama de vermelho, pois  possvel que as duas no empreguem o vocbulo 
excitante no mesmo sentido e tenham, realmente, experincias diferentes, embora suas expresses sejam as 
mesmas. 
Assim  o subjetivismo em sua forma extrema. Se cada um de ns tem a sua prpria experincia direta, e est 
irremedivelmente excludo da experincia de tdas as demais pessoas, essa experincia  um assunto 
particular de cada um de ns e no  possvel, baseando-se nela, criar-se uma cincia. Na verdade, se to 
pouca coisa se pode tirar da experincia direta de um homem, no que diz respeito s experincias semelhantes 
em outros homens,  lcito irmos ainda mais longe e indagarmos se mesmo nossos melhores amigos tm 
qualquer experincia direta. Realmente, tudo o que vemos ou ouvimos, quando conversamos com les, faz 
parte de nossa prpria experincia. O que, em nossa experincia, parece ser, por exemplo, a voz dsses amigos, 
, antes de mais nada, o resultado de fenmenos fsicos nos msculos de suas bcas e gargantas, que devem 
ser compreendidos do ponto de vista da pura fsica e fisiologia. Se assim , como podemos saber que, em 
nossos amigos, tais fatos so acompanhados pela experincia direta? 
Os adeptos do behaviorismo podem acrescentar que no negam certas contribuies que, antes do seu tempo, 
as velhas formas de Psicologia prestaram ao progresso dessa cincia, mas tambm diro que, quando 
estudamos tais realizaes, sob o ponto de vista atual, constatamos fcilmente um fato: que quase tdas elas 
foram alcanadas, no graas  introspeco e  descrio, mas sim  experimentao objetiva. A significao 
desta palavra  to evidente em psicologia quanto na cincia natural. Em lugar de convidarmos um indivduo a 
observar e descrever sua experincia direta, ns o colocamos em uma situao bem definida,  qual le reagir 
de um modo ou de outro. Podemos, ento, observar e medir essas reaes, sem que le nos oferea qualquer 
descrio de suas experincias. Foi dsse modo que a Lei de Weber se descobriu; foi essa a espcie de 
experincia graas  qual Fechner transformou a Psicologia em uma cincia experimental; atravs de pesquisas 
dsse tipo, com a ausncia quase completa de introspeco, foram investigadas a memria e a formao dos 
hbitos, e, da mesma maneira, Binet e Simon mediram, pela primeira vez, inteligncias individuais. Atualmente, 
mesmo os adeptos da introspeco smente nos oferecem descries de cres e tonalidades, prazeres e 
volies, quando no encontram um mtodo mediante o qual a descrio seja substituda por medies 
objetivas. De fato, o adepto da introspeco, individualmente, mostra-se 
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disposto a aceitar as descries apresentadas por um correligionrio, at o ponto exato em que ste outro 
tenha conseguido confirmar suas descries com dados mais objetivos. Que vantagem tem, ento, a utilizao 
da experincia direta e da descrio? 
Partindo dessa crtica, nem todos os partidrios do behavorismo chegam s mesmas concluses concernentes 
 experincia direta como tal.  verdade que nenhum, pode-se dizer, considera a experincia direta como de 
intersse para a cincia, uma vez que a mesma, como assunto particular de indivduos, no  accessvel  
observao objetiva, e portanto cientfica, feita por outros. Apenas uns poucos membros da escola chegam ao 
ponto de negar de todo a existncia da experincia direta, odiando evidentemente, a prpria idia. Essas 
pequenas divergncias de opinio, contudo, no tm importncia particular. No que concerne ao mtodo, 
todos os adeptos do behavorismo sustentam as mesmas opinies negativas e positivas. A sse respeito, seu 
programa  mera conseqncia dos argumentos antes expostos. Com sua experimentao objetiva, o psiclogo 
se colocou, de maneira tcita, no terreno estritamente cientfico. Sua nica debilidade consiste no fato de que 
le ainda no se tornou plenamente consciente da diferena, em princpio, que h entre as tcnicas exatas e o 
agrupamento meramente sub jetivo. Os fsicos e os qumicos mostram-se interessados em saber de que maneira 
um sistema que est sendo investigado reagir, quando exposto a determinadas condies; tambm indagam 
como a reao se transforma, quando as condies so modificadas. Ambas as indagaes so respondidas 
pela observao e medio objetivas. Ora, esta  tambm precisamente a forma adequada de pesquisa em 
Psicologia: um sujeito de certo tipo (criana, adulto, homem, mulher ou animal)  escolhido como o sistema a 
ser investigado. So asseguradas e controladas de maneira objetiva certas condies, as mais importantes das 
quais so as que se referem ao estmulo externo. A reao do sujeito, resultante da experincia,  registrada ou 
medida exatamente como o so as reaes de sistemas na Fsica ou na Qumica. 
Assim, a nica coisa que os psiclogos tm de reconhecer agora  que smente tal processo poder ser til  
consecuo de qualquer objetivo til em seu campo. O comportamento, isto , a reao dos sistemas vivos aos 
fatres ambientes,  o nico assunto referente ao sujeito que pode ser investigado na Psicologia cientfica; e o 
comportamento de modo algum envolve a experincia direta. O trabalho expermental do futuro estudar 
mesmo as formas mais elevadas de comportamento, de maneira puramente objetiva. Isso deve acontecer, 
porque a experincia direta no ocorre apenas em certo ponto de uma experincia real. Para alguns, esta 
verdade  um tanto obscurecida pelo fato de que, em muitas experincias, as reaes da linguagem se mostram 
de alguma importncia. Se o prprio experimentador desfruta o que le chama experincia direta, e se tal 
experincia abrange grande nmero de coisas associadas com palavras, le se mostrar inclinado 
a considerar as palavras de seu sujeito como sinais de experincias semelhantes por parte daquela pessoa. No obstante, 
tais palavras podem ser consideradas como reaes do sujeito, e, como tais, so fatos fsicos puramente objetivos, 
produzidos por certos processos na laringe e na bca do sujeito. Embora o experimentador saiba que outros processos 
objetivos, como os da enervao, ocorrem antes que certos msculos produzam as palavras, como seqncia de ondas 
sonoras, a razo o aconselha a no ir mais alm. De acrdo com nossa anlise, le jamais saber se alguma experincia direta 
acompanha aqules processos. Convm, talvez, que nos disciplinemos de maneira a usar com menos freqncia as reaes 
da linguagem na experimentao psicolgica, at que seja, afinal, afastado o perigo de associar a linguagem com a 
experincia direta, e a introspeco tenha desaparecido da psicologia como cincia. 
Naturalmente, nem tdas as reaes de um sujeito podem ser observadas objetivamente com a mesma facilidade. Algumas 
vzes, mesmo fortes estmulos no produzem um comportamento patente, que possa ser registrado externamente, com os 
mtodos atuais. Na maioria dsses casos, contudo, podem ser obtidas informaes altamente valiosas dos fisiologistas que 
estudaram as funes da parte autnoma do sistema nervoso e as reaes subseqentes nos rgos viscerais mais 
importantes, inclusive nas glndulas endcrinas. Uma das principais tarefas da Psicologia ser a de criar e adotar tcnicas 
exeqveis, at que tais reaes viscerais possam ser registradas com tda a facilidade. Tambm temos motivo para 
presumir que aquilo que os partidrios da introspeco chamam de pensamento consiste realmente de pequenas 
enervaes a que so submetidos, no momento, os msculos ligados s 
reaes verbais. - 
Espero ter, at aqui, apresentado um resumo correto das opinies predominantes entre os adeptos do behavorismo. Deve 
ser exato, uma vez que, sob vrios aspectos, simpatizo com essas opinies e no acalento grande entusiasmo pela 
introspeco, que aqui foi criticada. Em grande parte, a introspeco corrente mostra-se bastante estril. Em estranho 
contraste com suas pretenses, desvia a pesquisa de problemas mais urgentes. Veremos, mais tarde, se se trata de uma 
propriedade intrnseca da introspeco ou se isso  apenas uma conseqncia de erros partcularmente freqentes entre os 
partidrios da introspeco. 
Presentemente, temos diante de ns um problema mais simples. Nas cincias naturais, observa o adepto do behavorismo, 
os mtodos dizem respeito  realidade objetiva, ao passo que a introspeco da experincia direta se  que existe tal coisa  
diz respeito a algo inteiramente subjetivo. Ser isto verdade? Ser ste o verdadeiro motivo de terem as cincias naturais 
conquistado a admirao do mundo, ao passo ue a Psicologia ainda se encontra em estado embrionrio? No posso admitir. 
Parece-me que, surgindo com um admirvel entusiasmo pela 
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exatido, o behavorismo se enganonu inteiramente nesse ponto e, em conseqncia, a energia despendida objetivando 
qualquer utilizao da experincia direta foi aplicada errneamente. De fato, seja o que fr que possa ter acontecido durante 
o desenvolvimento individual de nossos argutos partidrios do behavorismo, no que diz respeito a mim mesmo, tenho a 
narrar o que se segue e que nos traz de volta ao nosso ponto de partida. 
Em criana, conheci a experincia direta antes que pudesse mesmo imaginar um mundo que se situasse inteiramente alm 
dela, como o da Fsica. Naquele tempo, naturalmente, no conhecia eu a expresso experincia direta, e ela no poderia 
ter, para mim, qualquer significao, enquanto no tomei conhecimento do mundo fsico, com o qual ela se contrastou. Em 
meu mundo original, intmeras variedades de experincias mostraram-se inteiramente objetivas, isto , existindo ou 
ocorrendo externa e independentemente. Outras experincias pertenciam-me, pessoal e particularmente, e eram 
subjetivas: como, por exemplo, um mdo terrvel em certas ocasies e uma felicidade calorosa e dominadora, por 
ocasio do Natal. 
Nos prximos captulos, trataremos principalmente da experincia objetiva. Esta expresso, porm, pode fcilmente ser 
mal entendida. Procurarei, portanto, esclarecer sua significao de maneira mais precisa. Assim fazendo, correrei, mesmo, o 
risco de repetir certos argumentos, porque ste  o ponto em que surgem, em sua maior parte, as dificuldades que temos de 
enfrentar. 
A palavra experincia indica que, embora se mostrando como objetivas, as coisas que me rodeam foram, na realidade 
sentidas, como se fssem dadas em minha percepo. Nesse sentido, elas ainda continuariam a ser subjetivas. No se 
trata disso, porm. Aquelas coisas encontravam-se simplesmente do lado de fora. No tenl suspeita alguma de que elas 
sejam apenas os efeitos de outra coisa sbre mim. Devo ir adiante. Nem se pode mesmo conceber que tais coisas dependam 
da minha presena, que eu tenha de conservar os olhos abertos, etc. To absolutamente objetivas so essas coisas que no 
foi deixado lugar para um mundo mais objetivo. Agora mesmo, sua objetividade  to forte e natural que me vejo 
constantemente tentado a atribuir ao seu interior certas caractersticas que, de acrdo com os fsicos, constituem fatos do 
mundo fsico. Quando, nestas pginas, eu empregar a expresso experincia objetiva, ser sempre nesse sentido. Por 
exemplo: em uma experincia objetiva, uma cadeira ser sempre algo externo, slido, estvel e pesado. Em nenhuma 
circunstncia se tratar de algo meramente percebido ou de um fenmeno, de algum modo subjetivo. 
Entre alguns casos,  verdade, a discriminao entre os aspectos objetivo e subjetivo da experincia direta pode tornar-se 
duvidosa, como  o caso da ps-imagem ou da picada de uma agulha no dedo. Isto no torna a discriminao menos 
importante. Faamos uma comparao com um exemplo tirado das ciencias naturais: na Fsica, a distino entre as 
substncias condutoras de 
eletricidade e as isolantes tem grande valor, embora entre o extremos se encontrem muitos casos intermedirios. No caso 
que tratamos, o ponto princi.. pai  o fato de que, com relao s coisas, seus movimentos etc., alcana..ge a mais elevada 
objetivida 
Repetindo: quando comecei a estudar Fsica, no aprendi apenas noes referentes ao mundo fsico. Outra lio ligou-se, 
necessrjamen te, quele estudo: travei conhecimento com unia maneira de pensar na qual a expresso experincia direta 
adquiria seu significado o mundo fsico podia no ser idntico ao mundo objetivo que eu tinha, constan. temente, em trno 
de mim. Melhor ainda: aprendi que os objetos fsicos influen-ciam um sistema fsico particu1aeflte interessante, meu 
organismo, e que minha experincia objetiva surge quando, como conseqncia certos processos complicados j ocorrer 
em tal sistema. Evidentemente, compreendi que no poderia identificar os produtos finais, as coisas e fenmenos de minha 
experincia com os objetos fsicos dos quais procediam as influncias. Se um ferimento no  a arma de fogo que lanou o 
projtil, isto quer dizer que as coisas que tenho diante de mim, que vejo e apalpo, no podem ser idnticas aos objetos 
fsicos correspondentes estes objetos apenas provocam certas alteraes dentro de meu organismo fsico, e os produtos 
finais dessas alteraes so as coisas que contemplo no meu campo visual ou que apalpo com os meus dedos. 
No deixa de ser verdade, porm, que as coisas, neste ltimo sentido, foram os primeiros objetos que conheci. Alm dsso, 
compreendo agora que jamais poderia conhecer diretamente quaisquer outros objetos tais como os do mundo fsico.  claro 
que as caractersticas do mundo fsico s poderiam ser investigadas como uni processo de inferncia ou interpretao, por 
mais necessria que a interpretao pudesse ser. Era em contraste com ste mundo, o interpretado, que o mundo diante de 
mim poderia agora ser chamado de mundo de experincia direta. 
Mas como posso dizer que uma cadeira, por exemplo,  uma experincia objetiva, se tenho que admitir que ela depende de 
certos processos de meu organis A cadeira no se torna subjetiva sob ste aspecto? Torna.se e no se torna. Neste 
momento mesmo, mudamos a significao dos t&mos subjetivo e objetivo. No pargrafo anterior, objetivo denotava 
uma caracterstica que, em contraste com outras, algumas partes da minha experincia possuem em si mesmas (exatamente 
como tm tamanho, cr, solidez, etc.). Como, porm, tem sido usado at agora, o trnio subjetivo refere-se  dependncia 
gentica 
1 J vimos que a mesma obseao se aplica s relaes entre o nOSSO organismo como Sistema ffsio e noeso 
corpo como fato perceptivo Meu corpo O resultado de certos proceesos em meu organj0 fisico, proceSSo Que 
comea nos Olhos. rnscj,5 epiderme, etc., exatsmente como a cadeira Que temos diante dos OlhOs 4 o produto final 
de outros Processos no mesmo organism0 fisic. Se a cadeira  Vta diante de mim, o mim desta frase refere-ss 
naturalmente ao meu Corpo Como experincia no ao meu organismo Como objeto do mundo fsico. Os Prpsj 
PSIClOgO, nem sempre parecem encarar sse Ponto com Perfeita Clareza. 
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de tda experincia para com meu organismo fsico. Neste ltimo sentido, o subjetivismo no , em si mesmo, 
um atributo experimentado, mas antes uma relao que atribumos a tdas as experincias e, portanto, tambm 
s objetivas, j que aprendemos a consider-las como resultados de processos orgnicos. Com muita 
freqncia, so dois significados da expresso confundidos da maneira mais lamentvel, como se o que  
genticamente subjetivo tambm tivesse de aparecer como subjetivo na experincia. Alguns psiclogos 
adeptos da introspeco, por exemplo, mostram-se inclinados a achar que, a rigor, a cadeira que tenho diante 
de mim deve ser um fenmeno subjetivo, que s aparece diante de mim como conseqncia da aprendizagem 
ou interpretao. Por outro lado, como no se pode encontrar tal cadeira subjetiva, os partidrios do 
behaviorismo zombam dos adeptos da introspeco, por viverem em um mundo de fantasmas imaginrios. A 
simples verdade  que algumas das experincias, que dependem de processos em meu organismo, tm o carter 
objetivo, ao passo que outras, que dependem de processos diferentes no mesmo organismo, tm o carter 
subjetivo, liste contraste nada tem a ver com o subjetivismo gentico de ambos os tipos de experincia, isto , 
com o fato de ambos dependerem de fenmenos que ocorrem dentro do organismo. Espero que, depois disso, 
se tornem impossveis mal-entendidos a respeito da expresso experincia objetiva. Quando falo a respeito 
de uma cadeira, refiro-me  cadeira de minha vida quotidiana e no a um fenmeno subjetivo. 
Por outro lado, como j vimos, a cadeira da experincia objetiva no pode ser identificada com a cadeira como 
parte do mundo do fsico. Ora, como o mundo da experincia direta foi o primeiro que conheci, e como tudo 
que sei a respeito do mundo fsico foi, posteriormente, inferido de certos fenmenos do mundo experimentado, 
como poderia eu ignorar o mundo experimentado? Afinal de contas, le contnua a ser a nica base de que 
disponho para as minhas suposies a respeito dos fatos fsicos. Se quiser, poderei, sem dvida, levantar a 
questo de saber se, em um certo sentido, o mundo fsico no ser o mais importante. Mesmo, contudo, que eu 
deva admitir tal fato, do ponto de vista do conhecimento ou da comunicao, o mundo experimentado  
anterior ao da fsica. Alm disso, a nica maneira de que disponho para investigar as realidades fsicas 
consiste em observar experincias objetivas e delas tirar as concluses adequadas. Na realidade, com o 
progresso da Fisiologia poderemos descobrir os processos nervosos que ligam nossas observaes s nossas 
concluses e apresentarmos, assim, uma teoria fsica daqueles fenmenos. Ainda nesse caso, porm, como o 
mundo da Fisiologia faz parte do mundo fsico, jamais se tornar diretamente accessvel a ns. Qualquer 
progresso que possamos alcanar na Fisiologia depender das observa. es do que chamamos corpo atravs 
de experincia perceptiva direta. Se ouvirmos os adeptos do behaviorismo, teremos a impresso de que 
os mundos fsico e fisiolgico, em si mesmos, so diretamente conhi dos e que, no caso dles, partidrios do 
bebaviorismo o conhecimento nada tem a ver com a experincia direta. A verdade  que no posso modificar 
esta descrio do meu prprio caso, no qual no h acesso direto aos fatos fsicos e fisiolgicos. Com ste 
defeito,  claro que considero tremendamente difcil tornar-me adepto do behavjorismo 
Que dizer, ento, da afirmao daquela escola no sentido de que, na fsica, a observao trata da realidade 
objetiva, ao passo que, no caso da experincia direta, trata com algo desprovido de valor cientfico? 
Descreverei minha prpria maneira de proceder, quando investigo as propriedades de um corpo fsico ou 
qumico. H, nesta mistura de substncias qumicas, uma quantidade considervel de H4C2O2p Estou ciente 
da presena da mistura, graas a certas experincias objetivas que tenho diante de mim e encontro a resposta 
afirmativa  pergunta cheirando, isto , por meio de mais uma experincia direta. Como se trata de um processo 
bastante grosseiro, consideremos um caso de medio rigorosa. Qual  a intensidade da corrente eltrica que, 
em determinadas condies, passa por aqule fio? A posio de um ponteiro na escala de um certo aparelho m 
d a resposta, do ponto de vista visual, pois o aparelho faz parte de meu campo visual, exatamente como o fio e 
as determinadas condies se apresentam como parte da experincia objetiva. O mesmo se d no que diz 
respeito a tdas as afirmaes e medies que alguma vez eu possa fazer no campo fsico. Minhas 
observaes dos fatos fsicos permanecem sempre na mesma classe geral como as que se referem s ps-
imagens,  indistino que encontro na viso perifrica ou  sensao de me sentir bem. Assim, a exatido de 
minhas observaes fsicas no pode ser atribuida  alegada absteno de experincia direta nas pesquisas 
fsicas. No me abstenho da experincia dreta quando fao observaes na Fsica; na verdade, no posso 
abster-me. No entanto, o processo d bons resultados Assim, pelo menos algumas observaes que se 
referem  experincia direta devem constituir uma base perfeitamente adequada para a cincia. 
Se tdas as afirmaes concretas que posso fazer a respeito das pesquisas fsicas baseiam-se primordialmente 
em observaes dentro do campo da experincia evidenciam..se algumas conseqncias inevitveis. Como 
definir minhas expresses quando atuo como fsico? Como meu conhecimento da Fsica Consiste inteiramente 
de idias e observaes contjdas na experincia direta ou dela derivados, tdas as expresses de que eu me 
utilizar nessa cincia tero, afinal, que refletir  mesma fonte. Se eu procurar definir tais expresses, minhas 
definies, naturalmente iro referir-se a novas idias e expresses. Em ltima anlise, porm, o processo 
consistir sempre em apontar em direo a certas experincias s quais estou-me referindo, e sugerir onde 
devem ser feitas certas observaes Mesmo as mais abstratas 
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concepes da Ffsica, tal como a da entropia, sero destitudas de sentido sem uma referncia, ainda que indireta, a certas 
experincias diretas. Eu jamais poderia apresentar uma definio de trmos, na Fsica, ou compreender tal definio, quando 
apresentada por outros, se, a sse respeito, ela diferisse das definies que emprego em Psicologia. Tambm a sse 
respeito, contudo, o mtodo da Fsica  eficiente. Jamais tive dificuldade em compreender definies, quando converso com 
fsicos a respeito de sua cincia. Assim, algumas definies que, em ltima anlise, se referem  experincia direta, devem 
ser suficientemente rigorosas, uma vez que so usadas em uma cincia exata. A exatido das definies na Fsica no pode 
resultar do suposto fato de que, nessa cincia, as definies so independentes da experincia direta, uma vez que no 
existe tal independncia. 
Os adeptos do behaviorisnio, porm, afirmam que a observao da experincia direta  assunto particular de indivduos, ao 
passo que dois fsicos podem fazer a mesma observao: em um galvanmetro, por exemplo. No concordo com esta 
afirmativa. Mesmo do ponto de vista do behaviorismo, ela  incorreta. Quando algum observa um galvanmetro, observa 
algo diferente do galvanmetro como objeto fsico, pois o objeto de sa observao  o resultado de certos processos 
orgnicos, dos quais apenas o como  determinado pelo prprio galvanmetro fsico. Com a segunda pessoa, o 
galvanmetro observado , tambm, apenas o resultado fsico de tais processos, que, dessa vez, ocorrem no organismo 
daquela segunda pessoa. De modo algum, portanto, as duas pessoas observam o mesmo instrumento, embora, do ponto de 
vista fsico, ou processos, em um e outro caso, se iniciem com o mesmo objeto fsico. No entanto, na maioria dos casos, as 
nformaes das duas pessoas sbre a observao coincidem a tal ponto que elas jamais se preocupam em saber se pode ser 
tida como certa uma suficiente semelhana de seus dois galvanmetros experimentados e de ambos com o objeto fsico. 
Ainda desta vez, o processo  eficiente. O particularismo da experincia direta no preocupa quem quer que seja  na Fsica. 
Quando trabalha com outros em tais casos, cada fsico est simplesmente convencido de que seus colegas tm aqule 
galvanmetro diante dles. Dsse modo, admite, tcitamente, que seus colegas dispem de experincias objetivas bem 
semelhantes s suas prprias experincias, e no hesita em aceitar as informaes daqueles colegas como afirmaes a 
respeito de tais experincias. De acrdo com os adeptos do bebaviorismo, isso, naturalmente, quer dizer que o fsico 
permite que os assuntos particulares se imiscuam na cincia exata.  curioso observar que isso no se mostra, de modo 
algum, prejudicial ao procedimento cientfico, do mesmo modo que no prejudica as necessidades da vida quotidiana, onde 
ocorre a mesma atitude, geral e naturalmente. Em alguns casos, portanto, a crena nas experincias especficas de outrem 
no deve ser de modo algum prejudicial e no pode ser considerada como obstculo ao progresso da 
cincia. Assim, no pode ser por causa de tal crena que a Psicologia no est progredindo com maior rapidez. 
Resta uma conseqncia do fato de que a observao, na Fsica, se situa dentro do campo da experincia 
direta. Da mesma maneira que um fsico que observa seu aparelho, no receio que minha atividade como 
observador tenha qualquer influncia sria sbre as caractersticas do que observo, contanto que eu me 
mantenha, como um sistema fsico a distncia suficiente do aparelho, que representa outro sistema fsico. No 
entanto, como experincias diretas, ambos os aparelhos a serem observados e minha atividade de observao 
dependem de processos do mesmo sistema, isto , meu organismo. Tambm a sse respeito o adepto do 
behaviorismo deve estar equivocado, quando afirma que, devido  incluso, em um s sistema, do observador 
e dos fatos observados, a observao da experincia direta no tem valor cientfico. De fato, no caso da 
observao fsica, a situao  semelhante: o material a ser observado e o processo de observao pertencem 
ao mesmo sistema. Vemos, assim, que o fsico e o psiclogo se encontram, mais uma vez, exatamente na mesma 
situao. No importa, de modo algum, que eu me considere fsico ou psiclogo, quando observo um 
galvanmetro. Em ambos os casos, minha observao se dirige  mesma experincia objetiva. O processo  
eficiente na fsica. Por que no deveria ser usado na psicologia? Deve haver alguns casos em que a 
observao de fatos no campo da experincia direta no prejudica sriamente tais fatos. 
Sem dvida, ste argumento implica considervel limitao da amplitude de sua prpria aplicao. No quer 
dizer que sejam justificveis tdas as formas da chamada introspeco, e significa ainda menos que os 
resultados da introspeco sejam, em geral, inteiramente independentes da atividade daquele que executa a 
introspeco. A sse respeito, a posio crtica do behaviorismo apenas exagerou a amplitude de um 
argumento correto, aplicando-o inadequadamente a tdas as afirmaes referentes  experincia direta. O 
ponto crtico, em si mesmo,  bem apreciado em muitos casos. 
J mostrei como, mesmo na qualidade de fsico, temos de atuar com a experincia direta. Sem dvida, um 
extremista tal como o adepto do behaviorismo poderia tirar dessa afirmativa algumas dvidas quanto ao 
objetivismo dos mtodos seguidos no estudo da fsica. Felizmente, tais dvidas no tinham ainda surgido 
quando, nos tempos de Galileu, Newton e Huyghens, a Fsica deu os primeiros passos de real importncia. 
Aqules grandes investigadores limitaram-se a trabalhar, pragmtica e cndidamente, e, por felicidade, no 
foram perturbados por algum fsico partidrio do behaviorismo, que teria barrado todo o progresso por amor da 
pureza epistemolgica. O processo deu bons resultados, embora tivesse sido, por vzes, tarefa difcil justificar 
seus passos por motivos lgicos. As cincias que pretendem levar a cabo suas pesquisas de maneira eficaz 
geralmente mostram um saudvel desdm por tais 
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escrpulos. Seria prefervel para a Psicologia, depois de ouvir tda uma vigorosa lio de crtica do 
behaviorismo, que tambm voltasse ao seu trabalho com mais simplicidade e utilizasse tcnicas susceptveis 
de dar bons resultados. 
Como atitude cientfica, parece.me bem estranho o ruidoso ataque do behaviorismo  experincia direta. Os 
adeptos daquela escola no demonstram, em geral, demasiado intersse por consideraes de ordem 
epistemolgica.  apenas um ponto que, de sbito, chama sua ateno: 
Que posso saber sbre a experincia direta de outrem? Jamais terei uma prova definitiva da validade de tal 
conhecimento. Na Fsica, porm, a questo  diferente. Ali, estamos a salvo. O adepto do behaviorismo 
esquece-se de que provar a existncia de um mundo fsico independente  quase to difcil quanto nos 
certificarmos de que outras pessoas tm experincias. Se eu fsse um purista extremado, poderia pr em dvida 
o primeiro ponto, exatamente como os adeptos do behaviorismo refutam a presuno da experincia direta nos 
outros. Seja porque fr, no lhes ocorreu aplicar sua crtica  presuno do mundo fsico. No afirmaram: No 
se deve atuar baseando-se em um mundo fsico, que permanece sempre como simples presuno. Ao 
contrrio, presumem a realidade de tal mundo com tda a saudvel candura que lhes falta em Psicologia. Talvez 
isso se deva ao fato de as realizaes das cincias fsicas serem impressionantes e terem-se tornado o ideal do 
behaviorismo. Mas, como purista metodolgico, o partidrio do behaviorismo no deveria considerar meras 
realizaes como prova satisfatria em outras matrias.  claro que, pessoalmente, estou, a sse respeito, to 
convencido quanto qualquer adepto do behaviorismo. Tambm sei muito bem que as cincias muitas vzes 
acreditam e pressupem, quando a epistemologia pode ter suas dvidas. Mas, partindo dsse ponto de vista 
tambm posso acreditar, naturalmente, que os outros tm experincia direta. O importante  saber que isso 
serve para tornar meu trabalho mais simples e mais eficiente. Repetindo: considero perfeitamente justificada 
essa atitude, uma vez que verifico que meus trabalhos na Fsica tambm se baseam na experincia direta; que, 
naquela cincia, a presuno da experincia direta nas outras pessoas  tida como coisa natural, e que, 
portanto, a enorme superioridade da fsica sbre a psicologia no pode vir das diferenas a sse respeito. 
Vejo, neste momento, os adeptos do behaviorismo sorrindo irnica- mente. Diro les, sem dvida: Com tda 
a sua filosofia, o Sr. K5hler jamais conseguir qualquer progresso contra o behaviorismo, slidamente 
cientfico. Eu lhes responderia que a base do behaviorismo  to filosfica quanto a minha crtica: o 
behaviorismo viceja no terreno epistemolgico. Sob sse aspecto, a nica divergncia que me separa do 
partidrio do behaviorismo provm da amplitude de nossos campos visuais. le percebe apenas um s teorema 
da epistemologia: uma pessoa no pode observar a experincia de outra pessoa. Como extremista, le 
insiste exclusivamente nesse ponto e ignora o contexto de que le deriva, ao passo que eu o levo em considerao, como 
deixei bem claro no que antes ficou dito. E, evidentemente, prefiro tirar minhas condu. ses, partindo do ponto de vista 
mais amplo da situao. 
BIBLIOGRAFIA 
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